Do mesmo lugar de sempre, 09/05/2001
O barulho ensurdecedor dos trens quando passam, do trânsito e da vizinhança não incomodam mais. Já me acostumei a decadente vida que levo, a esse buraco que chamo de lar com suas paredes emboloradas de "cor" acre e ao fato de ser um fracasso como ser humano, de maneira geral.
Essa ausência de sensações e estímulos por vezes assusta, mas, na maior parte do tempo, convivo bem com ela e não reclamo. Ainda que aquela maldita repartição sugue um pouco de mim a cada dia, cansei de ser diferente; exótico. O sujeito conhecido pela ranzinzice e pela maneira explosiva de reagir. Sério, se o que afirmam ser o mundo vai de mal a pior, não foi por falta de aviso de gente que se preocupa - ou se preocupava como eu. Se algo tinha que ser mudado, bem, pelo menos pra mim, já não dá mais.
É fato que o consumismo, a devassidão, a superficialidade, a violência e a exposição desmedidas, assim como toda a sorte de lixo - literal ou não - com que temos tido de viver durante tanto tempo já se encontram enraizados e tornaram-se retrato de uma sociedade imbecil e tão, ou mais, decadente do que a vida que decidi levar. Sinto que nos diferenciamos apenas no fato de eu ter feito uma escolha, enquanto o resto do planeta parece não ter alternativa senão continuar caminhando pro centro do vórtice criado por ele mesmo, ainda que agora tente lutar desesperadamente pra salvar o pouco que lhe resta.
Não sei bem porquê, mas desenvolvi um gosto sádico pelo fracasso alheio. Mas... Qual o limite entre a dor e o prazer? Entre o medo e o desespero? Em qual dos dois lados você está? Em qual deles quer estar quando tudo realmente não tiver volta? Juro, não tenho uma arma e que me orgulho de viver nos limites do resto dessa sua ilusão mundana.
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5 de janeiro de 2011
1 de janeiro de 2011
Cartas sem remetente (parte 1)
De algum lugar, 21/04/2001
Mais um cigarro e mais um pouco da minha vida foi-se embora. Como será que fica o pulmão quando damos umas tragadas? Como deve ficar sua cor nesse momento? Às vezes queria ser médico só pra poder responder essas perguntas simples a mim mesmo, mas nunca fui inteligente o bastante - nem dedicado - pra isso e, graças ao destino e minha inépcia, hoje estou aqui.
Mais uma noite se vai e as ideias continuam a me aprisionar. Talvez precise ir além de uma simples vida pra tentar escapar desse cativeiro que é minha mente. Por trás dessas barras de ferro há centenas de milhares de lembranças e memórias que insistem em não me deixar. Por quanto tempo ainda dá pra aguentar?
15 de novembro de 2010
Calhordagem, Canalhice e Cafajestagem
- E esse cheiro de perfume barato de mulher na sua blusa, pode me explicar?
- Se parece com a fragrância de algum que você usa?
- Claro que não, Pereira! Se fosse meu eu não estaria te perguntando.
- Então é dela...
- Ela quem, Pereira? Não brinca comigo! Você tá me traindo, seu canalha?
- Não diria que trair é bem a palavra correta. Diria: Experimentando novos ares, entende?
A mulher desaba em prantos e continua:
- Que novos ares? Que novos ares? Você não gosta mais de mim, é isso? Quê que eu te fiz pra você me trair?
- Na verdade, não fez nada. Só cansei de "comer feijão" todos os dias. Acontece.
- Quê que eu tô fazendo de errado? Me fala e eu mudo! Como é que você pôde fazer isso comigo, Pereira?
- Você é ótima, querida. O problema não é você. Homem que é assim mesmo, você sabe.
- Pensei que você fosse diferente, Pereira. Pensei mesmo. Que podia te mudar, te fazer só meu. Eu sou um fracasso.
- Não fala assim que parte meu coração. Ó, toma aqui um lenço e para de chorar.
- E agora, como a gente fica? Não sei se meu amor por você vai resistir a isso.
- Para de drama e vem cá. Você vai ficar bem, acredite. Daqui a pouco passa e você se acostuma.
- Me acostumar? Você pretende continuar me traindo, seu canalha?
- Não posso prometer que nunca mais vou fazer isso, né? Mas, ó, se você quiser, tá livre pra arrumar outros aí.
- Sabe que não é bem assim que funciona e que eu não sou disso.
- Aí eu não posso fazer nada. Não fui eu quem inventou o machismo na sociedade.
- Só me diz uma coisa? Cê jura que me ama?
- Claro que amo, meu amor. Esses novos ares que eu tenho respirado não significam nada. Pode ficar tranquila. Tenho tanto respeito pelo nosso amor que nessas horas até a aliança eu escondo. Um símbolo tão sagrado não pode ser profanado assim, né?
- Hum... Garanto que ela não cozinha tão bem quanto eu. Vem logo! A comida tá na mesa.
- Não acredito! Feijão de novo, Malu?
- Se parece com a fragrância de algum que você usa?
- Claro que não, Pereira! Se fosse meu eu não estaria te perguntando.
- Então é dela...
- Ela quem, Pereira? Não brinca comigo! Você tá me traindo, seu canalha?
- Não diria que trair é bem a palavra correta. Diria: Experimentando novos ares, entende?
A mulher desaba em prantos e continua:
- Que novos ares? Que novos ares? Você não gosta mais de mim, é isso? Quê que eu te fiz pra você me trair?
- Na verdade, não fez nada. Só cansei de "comer feijão" todos os dias. Acontece.
- Quê que eu tô fazendo de errado? Me fala e eu mudo! Como é que você pôde fazer isso comigo, Pereira?
- Você é ótima, querida. O problema não é você. Homem que é assim mesmo, você sabe.
- Pensei que você fosse diferente, Pereira. Pensei mesmo. Que podia te mudar, te fazer só meu. Eu sou um fracasso.
- Não fala assim que parte meu coração. Ó, toma aqui um lenço e para de chorar.
- E agora, como a gente fica? Não sei se meu amor por você vai resistir a isso.
- Para de drama e vem cá. Você vai ficar bem, acredite. Daqui a pouco passa e você se acostuma.
- Me acostumar? Você pretende continuar me traindo, seu canalha?
- Não posso prometer que nunca mais vou fazer isso, né? Mas, ó, se você quiser, tá livre pra arrumar outros aí.
- Sabe que não é bem assim que funciona e que eu não sou disso.
- Aí eu não posso fazer nada. Não fui eu quem inventou o machismo na sociedade.
- Só me diz uma coisa? Cê jura que me ama?
- Claro que amo, meu amor. Esses novos ares que eu tenho respirado não significam nada. Pode ficar tranquila. Tenho tanto respeito pelo nosso amor que nessas horas até a aliança eu escondo. Um símbolo tão sagrado não pode ser profanado assim, né?
- Hum... Garanto que ela não cozinha tão bem quanto eu. Vem logo! A comida tá na mesa.
- Não acredito! Feijão de novo, Malu?
6 de novembro de 2010
Como proceder? - Cinema (Intro)
Há um mês atrás conversei com uma amiga sobre o quanto é díficil saber como agir quando se pretende ir ao cinema com alguém. Hoje vou reproduzir alguns trechos da nossa conversa pra ilustrar melhor o que pretendo dizer em outras postagens, que vão falar sobre a antropologia por trás desse programa tão singelo que é ir ver um filme. Acompanhem:
Ela: - Ir no cinema com um homem que não é seu amigo, é quase certeza de que vocês vão se pegar, porque é uma coisa intima, sei lá hahahahahaha. Pensa só... você chamaria um amigo seu pra ir no cinema, só vocês dois sem pensar em bobagem? Você vai com uma mulher, que não é sua amiga, sem segundas intenções? É intimo, to falando!
Eu: - Não vejo nada de demais em 2 homens irem ao cinema. Nunca me aconteceu, mas não vejo problema.
Ela: - Nunca aconteceu porque é uma coisa considerada esquisita, to te dizendo! Veja na fila... Você vê 2 meninas, mas 2 homens?! Eu não vejo nada demais, mas é uma regra velada hahahaha. Sério, cinema não é um programa qualquer, tem regrinhas. Exemplo: Eu tenho um namorado e um dia ele me diz: "Encontrei fulaninha e tomei um café com ela." Eu digo: "Ok, querido." Agora se ele vira e diz que foi ao cinema com a tal fulana, dou na cara dele!
Eu: - Cinema implica em um encontro romântico?
Ela: - Um homem e uma mulher sozinhos no cinema é meio estranho... eu tenho amigo homem que não rola clima nenhum, mas nunca fui só com ele. Os homens com quem fui sozinha no cinema, acabei pegando.
Eu: - Tá vendo ai? Por isso digo que cinema é alçapão.
Ela: - Reduzir cinema a isso é errado.
Eu: - Claro que não é errado. Eu não gosto de cinema, oras! Hahahaha
E foi por causa desse papo de doido, meio sem pé, nem cabeça que tudo começou... Em breve eu volto com as conclusões do meu estudo sobre a etiqueta do cinema. Abraços!
Ela: - Ir no cinema com um homem que não é seu amigo, é quase certeza de que vocês vão se pegar, porque é uma coisa intima, sei lá hahahahahaha. Pensa só... você chamaria um amigo seu pra ir no cinema, só vocês dois sem pensar em bobagem? Você vai com uma mulher, que não é sua amiga, sem segundas intenções? É intimo, to falando!
Eu: - Não vejo nada de demais em 2 homens irem ao cinema. Nunca me aconteceu, mas não vejo problema.
Ela: - Nunca aconteceu porque é uma coisa considerada esquisita, to te dizendo! Veja na fila... Você vê 2 meninas, mas 2 homens?! Eu não vejo nada demais, mas é uma regra velada hahahaha. Sério, cinema não é um programa qualquer, tem regrinhas. Exemplo: Eu tenho um namorado e um dia ele me diz: "Encontrei fulaninha e tomei um café com ela." Eu digo: "Ok, querido." Agora se ele vira e diz que foi ao cinema com a tal fulana, dou na cara dele!
Eu: - Cinema implica em um encontro romântico?
Ela: - Um homem e uma mulher sozinhos no cinema é meio estranho... eu tenho amigo homem que não rola clima nenhum, mas nunca fui só com ele. Os homens com quem fui sozinha no cinema, acabei pegando.
Eu: - Tá vendo ai? Por isso digo que cinema é alçapão.
Ela: - Reduzir cinema a isso é errado.
Eu: - Claro que não é errado. Eu não gosto de cinema, oras! Hahahaha
E foi por causa desse papo de doido, meio sem pé, nem cabeça que tudo começou... Em breve eu volto com as conclusões do meu estudo sobre a etiqueta do cinema. Abraços!
9 de outubro de 2010
Dados na televisão
É irritante a forma como o tédio me consome: Lenta e constantemente. Mais um café, mais uma água e nada acontece.
Detesto esses dias em que as horas parecem não passar. Os dedos tamborilam na mesa; mais uma notícia inútil lida; a caneta, já cansada de ser virada e revirada, parece implorar pra que eu a deixe em paz. As horas não passam.
Todos estão quietos. Até eles... Até aquele grupo tão falante agora emudeceu. Alguns foram embora, enquanto outros estão ocupados. Tento contato: Um, dois e-mails e nada. Ninguém parece se importar. Desisto e penso em escapar por alguns minutos pra encontrar meu único e verdadeiro amigo nessas horas, o vilão dos puritanos e defensores de bandeiras demagógicas a favor de uma vida saudável, como a dos comerciais da TV - o cigarro. Penso um pouco mais e desisto da ideia por questões éticas. Maldição! O tempo passa e, ainda assim, nada acontece.
Detesto essa sensação de ócio e quase total impotência por não poder ir longe com as próprias pernas, apesar da noção de que ainda me encontro na base da escada pro paraíso.
Enfim, o dia acaba e finalmente posso saudar meu amigo com certo gozo, até a hora de atirá-lo na primeira sarjeta. "Passou voando, não, companheiro?"
Confesso que essa noção variável de tempo me deixa confuso e querendo mais um trago...
Detesto esses dias em que as horas parecem não passar. Os dedos tamborilam na mesa; mais uma notícia inútil lida; a caneta, já cansada de ser virada e revirada, parece implorar pra que eu a deixe em paz. As horas não passam.
Todos estão quietos. Até eles... Até aquele grupo tão falante agora emudeceu. Alguns foram embora, enquanto outros estão ocupados. Tento contato: Um, dois e-mails e nada. Ninguém parece se importar. Desisto e penso em escapar por alguns minutos pra encontrar meu único e verdadeiro amigo nessas horas, o vilão dos puritanos e defensores de bandeiras demagógicas a favor de uma vida saudável, como a dos comerciais da TV - o cigarro. Penso um pouco mais e desisto da ideia por questões éticas. Maldição! O tempo passa e, ainda assim, nada acontece.
Detesto essa sensação de ócio e quase total impotência por não poder ir longe com as próprias pernas, apesar da noção de que ainda me encontro na base da escada pro paraíso.
Enfim, o dia acaba e finalmente posso saudar meu amigo com certo gozo, até a hora de atirá-lo na primeira sarjeta. "Passou voando, não, companheiro?"
Confesso que essa noção variável de tempo me deixa confuso e querendo mais um trago...
7 de agosto de 2010
Suburbia - O guia das selvas (parte 1)
O frio é desolador. O vento corta meu rosto como uma navalha ainda sem uso. Meus músculos se retesam a cada sopro congelante da madrugada. Minha jaqueta de couro pesado parece não ter forças pra combater a fúria da natureza, ou melhor, do que restou dela.
A cada arranha-céu erguido, letreiro neon construído ou implante bioeletrônico feito em uma dessas clínicas clandestinas que se encontram a qualquer esquina, é possível ouvir o lamento da mãe terra; o sofrimento de Gaia, que chora por um mundo cujos habitantes nada fazem para mantê-la em paz.
O futuro é distópico, cinzento e com pouquíssimas perspectivas de mudança. Nas ruas o que se vê, pelo menos em Suburbia - parte da grande zona ignorada pelo "governo" - é pura miséria, desordem e caos. A sensação de abandono é incrível e beira o inacreditável que alguém tenha conseguido sobreviver.
Passo agora por uma rua movimentada e a cena é deprimente: Enquanto a guarda do metroplexo abusa de sua autoridade com algum inocente, 3 jovens consomem seus entorpecentes livremente; nada contra eles, já que só dopado a vida parece ter alguma graça nesses dias, só não acho justo esse tipo de tratamento dispensado aos mais miseráveis dentre os miseráveis. Palmas para o "governo" por sua eficiência.
Enquanto aqueles que são pagos para nos proteger se divertem com o sofrimento alheio, entro na boate mais famosa da região. É chegada a hora da noite começar.
A cada arranha-céu erguido, letreiro neon construído ou implante bioeletrônico feito em uma dessas clínicas clandestinas que se encontram a qualquer esquina, é possível ouvir o lamento da mãe terra; o sofrimento de Gaia, que chora por um mundo cujos habitantes nada fazem para mantê-la em paz.
O futuro é distópico, cinzento e com pouquíssimas perspectivas de mudança. Nas ruas o que se vê, pelo menos em Suburbia - parte da grande zona ignorada pelo "governo" - é pura miséria, desordem e caos. A sensação de abandono é incrível e beira o inacreditável que alguém tenha conseguido sobreviver.
Passo agora por uma rua movimentada e a cena é deprimente: Enquanto a guarda do metroplexo abusa de sua autoridade com algum inocente, 3 jovens consomem seus entorpecentes livremente; nada contra eles, já que só dopado a vida parece ter alguma graça nesses dias, só não acho justo esse tipo de tratamento dispensado aos mais miseráveis dentre os miseráveis. Palmas para o "governo" por sua eficiência.
Enquanto aqueles que são pagos para nos proteger se divertem com o sofrimento alheio, entro na boate mais famosa da região. É chegada a hora da noite começar.
3 de junho de 2010
Cangaço urbano e cor-de-rosa
Quarta-feira, Gávea. Paro em frente ao “Mistura Chic”, que fica na mesma galeria do meu antigo trabalho. Eu e a vitrine do local nos encaramos por alguns segundos, olho no olho. O mundo ao nosso redor para e só o que importa é a tensão dos poucos metros que nos separam. O vento sopra, ninguém passa. Eu e a loja travamos um duelo, como nos velhos filmes de cowboy. O ar é pesado, ela tenta me intimidar com sua feminilidade.
“Vá embora, você não pertence a esse lugar”, sussurra a vitrine, mesmo sem palavras. “Você não vai se livrar de mim assim tão fácil. Eu preciso de um presente, e é aí que vou achá-lo”. “Você não terá coragem de entrar”, desafia.
Os minutos passam, cada um dos lados têm suas armas. A loja tem uma vendedora que me olha com curiosidade enquanto o tempo passa, eu tenho meu orgulho masculino que não se deixa vencer por uma loja de roupas de mulher.
“É uma mera loja de roupas, seu cabra frouxo. Entra aí e se vira”, diz o descendente de cangaceiro dentro de mim, com uma peixeira na mão e um rifle nas coisas. As sobras do meu diluído sangue nordestino realmente correram nas veias do Cangaço e agora se irritavam com a minha atitude. “Meu Deus, é uma loja de roupas de mulher. Como diabos você pretende sair daí vivo? Se entrar, é capaz de nunca mais ser o mesmo”, insiste a minha timidez.
Boto as mãos no bolso, faço cara de mau, o cangaceiro vence o duelo. No momento em que entro na loja, sinto todos os olhares na minha direção. A vendedora faz uma cara estranha e até o boa tarde soa nitidamente diferente. Não é só impressão minha, pois quando paro para ver as peças e olho rápido para fora, vejo que o guarda da galeria, o porteiro do prédio e a atendente da papelaria em frente me olham. Nos dois primeiros, sinto um espanto tão grande que não me surpreenderia se eles pensassem que estou buscando algo para mim. Já na atendente não, vejo o respeito de uma mulher que reconhece o abismo que separa uma loja feminina de um homem. Entrar sozinho num lugar desses é algo que assusta qualquer criatura do sexo masculino. Talvez não os gays, mas eles não contam.
“Você tem 38 desse aqui?”, eu pergunto, mostrando um vestido lindo que achei. “Não, só tenho 40”, responde a vendedora. “E desse?”, insisto, com um não tão bonito. “Também não”. O nervoso toma conta de mim, estou sozinho e perdendo as minhas armas. Eu venci o duelo, mas a batalha foi inútil e a guerra estava apenas começando.
Os confrontos se arrastam por vários lugares do Rio de Janeiro, mas a vítima é sempre a mesma: meu tempo. Gávea, Botafogo, Vila Isabel, Centro, Tijuca. A cada viagem de ônibus para outro lugar da cidade eu voltava meus olhos para o relógio do celular. O nervosismo era tanto que eu sempre o sentia vibrando no meu bolso, às vezes até escutava “About a Girl”, música que toca quando minha senhora liga. Cada segundo perdido me deixa mais próximo do aniversário dela e eu lamento a falta de pesquisa no ramo de viagens temporais. Eu facilmente me candidataria a ser cobaia para voltar uns dias no tempo.
O último reduto é o Shopping Tijuca. Falhar ali significaria voltar a qualquer um dos outros lugares pelos quais eu já tinha passado para comprar algo que não despertou minha atenção. Durante minha busca, passo em frente à Saraiva Mega Store. Entro e rapidamente acho um livro que me interessa, “Doutor Passavento”. Parece interessante, certamente ela gostaria.
“Cabra frouxo”, sussurra o cangaceiro dentro de mim. Ele está certo. Desde que decidi comprar um presente de aniversário para Deborah, escolhi que seria uma roupa. Era um desafio ao mundo feminino, algo como botar o dedo na cara dos deuses do Olimpo (especialmente Afrodite) e dizer “Ei, eu também tenho bom gosto o suficiente para escolher um pedaço de pano que te agrade. Isso não é privilégio seu, mulher”.
Mas “Doutor Passavento” realmente é atraente. Paro, olho. Acho que ele será um presente para alguma próxima vez. Volto correr pelo shopping e eis que sou surpreendido por ele, “o vestido”. Assim que nos olhamos, gostamos um do outro. Apreciei seu estilo e ele minha boa vontade de comprá-lo. Foi numa loja cujo nome não sei, no segundo andar, ao lado do B-52. Caminhei triunfante, eu tinha vencido.

Era um vestido de alças leves, jeito simples e bem casual, mas mimoso ao extremo. O vendedor me vê entrando na loja e logo me apresenta a ala masculina, mas eu aponto para a roupa que quero e ele sorri. A proximidade do Dia dos Namorados facilita a aproximação, mas não torna menos doloroso o golpe que recebo em seguida. Por mais casual que fosse, o vestido custava mais que uns dois ternos razoáveis juntos, seria capaz de bancar mais de dez noitadas minhas e foi o suficiente para acabar com o meu ânimo.
Quinhentos e sessenta e nove reais e noventa e nove centavos. Falando por extenso, dói mais. “Nem eu sou macho o suficiente para isso. Não se avexe não, rapaz”, consola o cangaceiro. Um grande vestido valeria isso, mas uma roupa informal daquelas com aquele preço? Só seu meu padrão social fosse bem diferente. Amaldiçôo minhas origens humildes e a sina de escolher roupas caras, mas não perco a pose. O vendedor e uma gerente me olham tão esperançosos que eu mesmo tenho pena de quebrar seus sonhos.
“Tem 38?”, pergunto, deixando os dois em êxtase. “Tem!”, exclamam ambos. “Merda”, penso, quase deixando escapar a palavra. Eles me mostram, a gerente faz questão de experimentar o vestido nela mesma e ele realmente é muito bonitinho, mas não o suficiente para o preço que cobra. “Lindo, não?”, ela pergunta, me mostrando a roupa. “Acho que vou levar”, minto. “Segura ele para mim que volto já”, digo, saindo dali para nunca mais voltar.
Uma última loja me separa do fracasso. Já fui em todas as vitrines, nada me agradou. Nessa última, também não achei nada que me chamasse atenção, mas sabia que lá dentro encontraria algo bom. Sempre gostei dela. No Natal, uma amiga minha ganhou uma roupa de lá, mas não gostou, foi trocá-la e pediu minha ajuda. Achei várias peças que julguei bonitas dentro do meu limitado gosto masculino. O problema é que o desânimo era tanto que eu não encontrava coragem de entrar.
Sem exagero, acho que fiquei cerca de meia hora indo e voltando para frente da loja. Nem o cangaceiro me falava mais nada, ele já tinha ido embora escalpelar alguém com sua peixeira, impaciente com minha falta de coragem. Eu estava só, privado até da minha timidez, que ficou desacordada e sem forças após as várias incursões em lojas femininas. No fim, o que me empurrou lá dentro foi o relógio.
“16h30!”, exclamou. Ou é ali, ou é a morte. Respiro fundo e entro. Uma das vendedoras vem na minha direção com um enorme sorriso, “No que posso ajudá-lo?”. Peço sugestões ou um tiro de misericórdia, bem entre meus olhos? Nenhum dos dois. Se fosse fazer algo, faria sozinho, tanto escolher a roupa quanto me matar. “Não, não precisa não. Estou só dando uma olhada”, respondo, e estou só de novo.
Passo as peças com cuidado e me decepciono com a grande maioria. Algumas são bonitinhas, mas não me chamam a atenção. Outras não tem nada a ver com a minha namorada. “Maldição, ela não poderia ter aceitado o pedido de namoro no dia 13 de junho? Assim não teria nem aniversário nem Dia dos Namorados e eu só precisaria dar alguma coisa no Natal! Teria quatro longos meses para sondá-la o suficiente”, eu penso.
Mas minha raiva acaba quando ponho os olhos num vestido xadrez vermelho. Ele também é de alças simples, jeitinho casual, leve, lindo. Ah, e ele não custa o preço de dois bons ternos. Quando pego o cabide e viro para trás procurando minha vendedora, percebo que todas elas estão olhando para mim. Era como um paredão de fuzilamento de uma ditadura comunista. Acho que seu eu fechasse os olhos, sentiria até o sol de Havana me queimando o rosto e o cheiro do charuto de Fidel , que comandava a execução.
Não peço clemência, mas elas sorriem. “Boa escolha!”, diz Paola, a vendedora. Todas parecem animadas. São vendedoras, claro, querem fazer o dinheiro delas. Mas sinto certa sinceridade em seus sorrisos. Posso não ser um especialista em moda, mas acho que escolhi algo bom. Pego o tamanho dela, Paola diz algumas coisas e eu me apresso para o caixa. Pago, olho o relógio e sinto o doce sabor da vitória. Só então percebo que meus pés doem por ter andado o dia inteiro. Também estou cansado mentalmente. Permanecer são numa guerra daquelas é um esforço épico. É só olhar para os veteranos da 2ª Guerra, todos loucos. E eles enfrentaram outros homens, e não o insondável universo feminino.
Agradeço a Paola e vou embora dali. Saio de cabeça erguida, o único homem vivo na loja feminina. Me sinto caminhando por uma montanha de corpos de outros rivais do sexo masculino que morreram ainda na vitrine, incapazes de adentrar um lugar daqueles sem uma amiga conselheira ou um amigo gay. Eu tenho os dois, mas meu ego pavimentou a decisão de ir só. Sorrio. Não sei se ela vai gostar, mas ainda estou orgulhoso. O cangaceiro senta ao meu lado e me oferece uma pinga braba. “Eu não teria feito melhor”, ele elogia.
Já do lado de fora, escuto a voz de Paola, que berra. “Boa sorte com o presente!”. Não consigo resistir e ficar corado enquanto sorrio, me viro e agradeço novamente. O cangaceiro ri, mas ainda divide a pinga comigo.
“Macho também fica vermelho, homem!”, consola.
Ps.: ah, essa aí do lado é ela. Acho que gostou do vestido, tanto que ficou com ele na festa de aniversário. 1 a 0 para os homens que sabem escolher roupas.
23 de abril de 2010
Vale a pena ler de novo (parte 1)
Pra amenizar um pouco do clima obscuro daqui, decidi postar um texto bem light - um dos melhores que já escrevi até hoje, diga-se de passagem - do meu antigo blog, chamado 'Os dias (parte 4)'. Vale dizer que fiz algumas alterações no original, mas nada de demais. Enfim, sem mais delongas, espero que curtam também:
Era sexta-feira em um bar movimentado e fervilhando de gente jovem, num dos pontos mais boêmios do Rio: A lapa. Estavam em três, fora a companhia de uma dúzia de garrafas de cerveja e alguns pratos de petiscos. Já se passava um pouco da meia-noite e, em outra mesa, três amigas. Uma delas não tirava o olho de um dos amigos, o mais tímido e quieto dos três. O mais extrovertido virou-se pro tímido e disse:
- Ih, cara, olha só! Aquela ali tá te dando mole.
- Como assim?!
- Ali, cara! Dá uma olhada naquela mesa. Aquela com três garotas... Viu? Então! Aquela ali, ó! - aponta o extrovertido.
- Que nada, de repente olhou lá pra fora... - tenta desconversar o tímido.
- Não, rapaz! Ela tá olhando toda hora pra você. Eu tô sacando!
- Esquece isso, cara! Não quero arrumar problema por causa de mulher.
- Mas tu não é de nada, hein!
Duas da manhã e o bar estava praticamente vazio, mas os amigos ainda estavam lá; E as amigas também.
- Agora você não pode dizer que ela tá só admirando a paisagem, nem olhando pra outra pessoa, né? O bar tá vazio.
- É... Realmente.
- Não te falei?! Aí, aposto cinquentinha como tu não tem coragem de falar com ela. – tinham o costume de sempre fazer apostas quando saíam. O tímido ou corria ou perdia.
- Eu dobro! - aumentou o outro amigo.
- Cês tão brincando! - disse o tímido.
- Brincando nada! Vai lá, quero ver. E tem outra... Se tu conseguir algo mais, já não vai precisar gastar do teu. Aqui... Cem reais pra terminar qualquer noite em alto estilo.
- Ah, é?! – aumentou o tom o amigo tímido.
- Pois eu vou! Vou esperar só as outras amigas dela saírem de perto e eu chego junto.
- Eu dúvido. – falou o outro amigo.
- E eu mais ainda! – completou o extrovertido.
- É agora. – respondeu decididamente o tímido.
A garota, percebendo a timidez do rapaz, pediu às amigas que se afastassem. Elas levantaram-se e foram até o banheiro. Ele chegou pouco tempo depois.
- Oi.
- Oi. – respondeu a garota.
- É... Tudo bem?
- Tudo sim! E você?!
- Eu tô bem. – Totalmente sem jeito com a situação, responde o tímido.
- Senta. – pediu a garota
- E aí?!
- E aí o que?
- E aí... Você veio aqui pra...
- Ah! É que... Que... Eu percebi que você tava olhando pra mim
- Que bom que você reparou. Sinal de que não passo despercebida na multidão.
- É. – respondeu sem jeito o amigo. Afinal, ela não podia saber que foi o amigo dele que a notou.
- Mas e aí, só veio aqui pra dizer isso? Que me notou olhando pra você?
- Não, não... É... Você... Tem namorado?
- Terminei semana passada, ou melhor, ele terminou. É difícil a gente encontrar alguém realmente legal hoje em dia, sabe? Dois anos de namoro... Disse que cansou. Fazer o que? Até gosto dele, mas não vou ficar correndo atrás de homem, né?
- É. – O tímido não tinha onde enfiar a cara. Na verdade, sequer sabia como foi parar ali. O efeito dos chopes estava se dissipando; e sua timidez crônica, que o atormenta desde criança, não ia deixá-lo em paz agora.
- Você só fala “é”? Você é tímido?
- Não, não é isso. É que...
- Adoro caras tímidos, sabia?
- É?
- É sim! As mulheres gostam de caras assim, eu acho.
- Isso é bom. Sinal de que eu ainda tenho chance de casar e ter família, né? – o tímido comentou, rindo depois da própria frase.
- Tem sim. Ainda mais bonitinho desse jeito. – ela resolveu partir pro ataque.
- Bonitinho é um feio arrumadinho. – começou o tímido a se soltar.
- Tá bom: Gatinho, bonito... Um pitel, como minha avó dizia.
- Que nada... Você que é a parte bonita de nós dois. – ele começou a gostar do papo.
- Você é um fofo, sabia? – derreteu-se a garota.
As amigas iam voltando à mesa quando viram os dois conversando em um tom animado e decidiram sentar-se com o grupo dos amigos para assistir a cena de camarote.
- Mas então...
- Então o que?
- Vamos terminar a noite aqui, nesse bar, com nossos amigos de plateia?
- Não, claro que não. Pra onde quer ir?
- Não sei... Quer dizer, na verdade sei, mas você tem que fazer o convite.
- Pra casa, é isso?
- Hum... Deixa eu ver... Pra casa? É, pra casa, mas não necessariamente pra dormir, muito menos sozinha.
- Ah, entendi! Você não perde tempo né?
- Acho que não. Assustado comigo?
- Não, não é isso...
- Ah bom!
- E aí, tá pronta? – perguntou o tímido.
- Pra sua ou pra minha?
Passaram pela mesa onde estavam os amigos e as amigas, despediram-se de todos e partiram em direção ao apartamento dele.
Uma bela noite de amor depois, já pela manhã, ele acordou e percebeu que ela não estava mais ao seu lado. Embaixo do abajur um bilhete. Letra de mulher - pensou. Ela havia deixado um bilhete antes de sair, que dizia:
“Queria dizer que amei ter te conhecido. Desculpa ter saído assim, é que, por mais que não pareça, eu também sou muito tímida. Fiz uma aposta com as minhas amigas de que sairia com alguém ontem e acabei tendo a sorte de te encontrar. Vê se não esquece de mim e me liga, tá?”
Ele nunca mais fugiu de uma aposta.
N.D.R: Só pra constar, inscrevi esse texto no mini-concurso da comunidade 'Eu Tenho Um Blog' do orkut, organizado pelo Negão Internauta. Deem seu apoio e se inscrevam também! Mais informações vocês conferem aqui.
Era sexta-feira em um bar movimentado e fervilhando de gente jovem, num dos pontos mais boêmios do Rio: A lapa. Estavam em três, fora a companhia de uma dúzia de garrafas de cerveja e alguns pratos de petiscos. Já se passava um pouco da meia-noite e, em outra mesa, três amigas. Uma delas não tirava o olho de um dos amigos, o mais tímido e quieto dos três. O mais extrovertido virou-se pro tímido e disse:
- Ih, cara, olha só! Aquela ali tá te dando mole.
- Como assim?!
- Ali, cara! Dá uma olhada naquela mesa. Aquela com três garotas... Viu? Então! Aquela ali, ó! - aponta o extrovertido.
- Que nada, de repente olhou lá pra fora... - tenta desconversar o tímido.
- Não, rapaz! Ela tá olhando toda hora pra você. Eu tô sacando!
- Esquece isso, cara! Não quero arrumar problema por causa de mulher.
- Mas tu não é de nada, hein!
Duas da manhã e o bar estava praticamente vazio, mas os amigos ainda estavam lá; E as amigas também.
- Agora você não pode dizer que ela tá só admirando a paisagem, nem olhando pra outra pessoa, né? O bar tá vazio.
- É... Realmente.
- Não te falei?! Aí, aposto cinquentinha como tu não tem coragem de falar com ela. – tinham o costume de sempre fazer apostas quando saíam. O tímido ou corria ou perdia.
- Eu dobro! - aumentou o outro amigo.
- Cês tão brincando! - disse o tímido.
- Brincando nada! Vai lá, quero ver. E tem outra... Se tu conseguir algo mais, já não vai precisar gastar do teu. Aqui... Cem reais pra terminar qualquer noite em alto estilo.
- Ah, é?! – aumentou o tom o amigo tímido.
- Pois eu vou! Vou esperar só as outras amigas dela saírem de perto e eu chego junto.
- Eu dúvido. – falou o outro amigo.
- E eu mais ainda! – completou o extrovertido.
- É agora. – respondeu decididamente o tímido.
A garota, percebendo a timidez do rapaz, pediu às amigas que se afastassem. Elas levantaram-se e foram até o banheiro. Ele chegou pouco tempo depois.
- Oi.
- Oi. – respondeu a garota.
- É... Tudo bem?
- Tudo sim! E você?!
- Eu tô bem. – Totalmente sem jeito com a situação, responde o tímido.
- Senta. – pediu a garota
- E aí?!
- E aí o que?
- E aí... Você veio aqui pra...
- Ah! É que... Que... Eu percebi que você tava olhando pra mim
- Que bom que você reparou. Sinal de que não passo despercebida na multidão.
- É. – respondeu sem jeito o amigo. Afinal, ela não podia saber que foi o amigo dele que a notou.
- Mas e aí, só veio aqui pra dizer isso? Que me notou olhando pra você?
- Não, não... É... Você... Tem namorado?
- Terminei semana passada, ou melhor, ele terminou. É difícil a gente encontrar alguém realmente legal hoje em dia, sabe? Dois anos de namoro... Disse que cansou. Fazer o que? Até gosto dele, mas não vou ficar correndo atrás de homem, né?
- É. – O tímido não tinha onde enfiar a cara. Na verdade, sequer sabia como foi parar ali. O efeito dos chopes estava se dissipando; e sua timidez crônica, que o atormenta desde criança, não ia deixá-lo em paz agora.
- Você só fala “é”? Você é tímido?
- Não, não é isso. É que...
- Adoro caras tímidos, sabia?
- É?
- É sim! As mulheres gostam de caras assim, eu acho.
- Isso é bom. Sinal de que eu ainda tenho chance de casar e ter família, né? – o tímido comentou, rindo depois da própria frase.
- Tem sim. Ainda mais bonitinho desse jeito. – ela resolveu partir pro ataque.
- Bonitinho é um feio arrumadinho. – começou o tímido a se soltar.
- Tá bom: Gatinho, bonito... Um pitel, como minha avó dizia.
- Que nada... Você que é a parte bonita de nós dois. – ele começou a gostar do papo.
- Você é um fofo, sabia? – derreteu-se a garota.
As amigas iam voltando à mesa quando viram os dois conversando em um tom animado e decidiram sentar-se com o grupo dos amigos para assistir a cena de camarote.
- Mas então...
- Então o que?
- Vamos terminar a noite aqui, nesse bar, com nossos amigos de plateia?
- Não, claro que não. Pra onde quer ir?
- Não sei... Quer dizer, na verdade sei, mas você tem que fazer o convite.
- Pra casa, é isso?
- Hum... Deixa eu ver... Pra casa? É, pra casa, mas não necessariamente pra dormir, muito menos sozinha.
- Ah, entendi! Você não perde tempo né?
- Acho que não. Assustado comigo?
- Não, não é isso...
- Ah bom!
- E aí, tá pronta? – perguntou o tímido.
- Pra sua ou pra minha?
Passaram pela mesa onde estavam os amigos e as amigas, despediram-se de todos e partiram em direção ao apartamento dele.
Uma bela noite de amor depois, já pela manhã, ele acordou e percebeu que ela não estava mais ao seu lado. Embaixo do abajur um bilhete. Letra de mulher - pensou. Ela havia deixado um bilhete antes de sair, que dizia:
“Queria dizer que amei ter te conhecido. Desculpa ter saído assim, é que, por mais que não pareça, eu também sou muito tímida. Fiz uma aposta com as minhas amigas de que sairia com alguém ontem e acabei tendo a sorte de te encontrar. Vê se não esquece de mim e me liga, tá?”
Ele nunca mais fugiu de uma aposta.
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10 de abril de 2010
Almoço em Londres
Essa historia nao se passa em ruas sujas e escuras do Rio. Ela tambem nao gira em torno de degradação moral ou fisica - temas sinceramente fascinantes, mas que nao cabem aqui hoje. Lida sim, meio que tangencialmente, com problemas sociais desse nosso pais, mas se passa mais ao norte do globo.
Recentemente esbarrei com Fernando, um brasileiro de trinta e poucos anos, garcom ha dez, pai de 3 filhos, prestes a comprar a casa propria. Esbarrei tambem com Lidia e Marco, gente simples que tenta criar seu filho, Miles, da melhor forma possivel. Nos dois casos, os encontros acidentais se deram em restaurantes forrados por tapetes e posteres coloridos. Velas, incenso, ópera tocando no radio, gente comendo, gesticulando, e tagarelando em ingles. Londres.
Fernando eu reconheci como conterraneo pelo sotaque. "Excuse me, sir, but where are you from?", perguntei. "I am Brazilian, miss," respondeu ele. Conversa vai e vem e meus companheiros de mesa me olham desconcertados sem entender o que tanto eu tenho pra conversar com o garcom, principalmente quando sei que eles nao compreendem uma virgula do que digo. Fernando, muito gentil, volta a se dirigir a nós em inglês e continua a me explicar por que prefere morar fora do Brasil: "It is safer, you see?", "E mais seguro, entende? Tem um sistema de educacao bem melhor pros meus filhos. Eu tenho condicoes de economizar, comprar minha casa, por meus negocios em ordem, e ainda viajar pro Brasil no Natal... E voce?"
Eu explico que nao moro em Londres. Estou de passagem. A vida, afinal, nao e tao ruim no Rio de Janeiro. O sistema educacional... bem, pelo menos a seguranca... e quando chove... Bem, ao menos da pra economizar e ir pra Inglaterra no Natal. Entre a lasanha, o pato assado, e a torta de chocolate, Fernando vai contando sobre como nao se adaptou quando tentou voltar ao Brasil depois de 5 anos. "Nao e ruim - ele insistia - mas tudo e tao devagar. Nao quero ficar esperando o pais melhorar enquanto assisto meus filhos crescerem!" Me despeco e acompanho meus companheiros de viagem ate a rua, onde volta e meia escuto o sotaque de algum brasileiro que passa.
Lidia e Marco eu reconheci por causa de Miles, o filho de tres anos que eles tem. "Senta, mae, senta," repetia Miles apontando para a cadeira proxima da minha. Eu sorri, disse oi, e cumprimentei os pais em portugues. "Carioca?" pergunta Lidia. Confirmo e descubro logo que eles sao de Sao Paulo e Curitiba. Miles e de Londres mesmo. "Mora aqui? Trabalha? Quer vir?" sao as perguntas costumeiras e eu nego todas. Eu gosto do Brasil na maioria das vezes. E quando nao gosto acho mais divertido ficar e cutucar as feridas com o humor e desapontamento de sempre.
Eles contam sobre como cansaram da falta de mudanca no nosso pais verde e amarelo. Queriam um lugar mais seguro pro Miles - vale a pena ressaltar que uma cidade sob risco de ataques suicidas extremistas, bateu Sao Paulo de 10 a 0. Queriam escolas melhores, hospitais sem filas interminaveis, e uma casa sem grades nas janelas. "Voce nao concorda?" eles me perguntam. Eu concordo com tudo, educada, e meio desconfortavel com essa verdade inconveniente que insiste em me atrapalhar o almoco.
Lembro do colega de escola que vivia me perguntando por que diabos eu queria voltar pro Brasil. Lembro desse blog que foi ideia dele. E, como o tema disso tudo sao pensamentos, resolvo puxar minha chair pra mais perto do computer e escrever um pouco. A passagem largada na mesa me lembra que essa e minha ultima noite aqui e, incomodamente, me pego pensando no quanto concordo ou nao com meus conhecidos de restaurante.
N.D.R: O texto foi mantido na sua forma original, sem cedilhas e acentos para que a essência e a estética que a autora imprimiu ao escrever, direto da Inglaterra, para o blog fossem preservadas.
N.D.R: O texto foi mantido na sua forma original, sem cedilhas e acentos para que a essência e a estética que a autora imprimiu ao escrever, direto da Inglaterra, para o blog fossem preservadas.
17 de março de 2010
Mitternacht
Enquanto aquele odor fétido adentrava as narinas e a noite avançava para dar lugar ao sol, continuávamos andando. Apesar de toda aquela sujeira, toda aquela podridão e de toda a miséria presenciada, não nos importávamos e mantinhamo-nos caminhando. 4 horas da manhã e lá estávamos, expostos a todos os riscos, a toda a sorte de gente inadequada e de aparência soturna que um lugar daquele podia nos proporcionar. Realmente Não nos importávamos. A vontade quase inconsequente de buscar diversão praticamente a todo o custo nos impeliu para ir até lá, de novo. A segunda vez em duas vezes que saímos juntos e paramos lá. Por alguma razão parece que toda aquela degradação nos atrai: Bares vendendo bebidas a preços irrisórios, mulheres expostas como mercadorias, lixo, carcaças de carros e uma mistura quase explosiva de cigarro com perfume barato pairando no ar. Por alguma razão achamos isso natural e só fomos embora porque o cansaço se abateu sobre todos.
No fim de tudo, o que fica são as lembranças e as pessoas. Só queríamos estar juntos e celebrar. Nada especial, mas pelo menos estávamos juntos, e é isso que realmente importa.
No fim de tudo, o que fica são as lembranças e as pessoas. Só queríamos estar juntos e celebrar. Nada especial, mas pelo menos estávamos juntos, e é isso que realmente importa.
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