10 de abril de 2010

Almoço em Londres

Essa historia nao se passa em ruas sujas e escuras do Rio. Ela tambem nao gira em torno de degradação moral ou fisica - temas sinceramente fascinantes, mas que nao cabem aqui hoje. Lida sim, meio que tangencialmente, com problemas sociais desse nosso pais, mas se passa mais ao norte do globo.

Recentemente esbarrei com Fernando, um brasileiro de trinta e poucos anos, garcom ha dez, pai de 3 filhos, prestes a comprar a casa propria. Esbarrei tambem com Lidia e Marco, gente simples que tenta criar seu filho, Miles, da melhor forma possivel. Nos dois casos, os encontros acidentais se deram em restaurantes forrados por tapetes e posteres coloridos. Velas, incenso, ópera tocando no radio, gente comendo, gesticulando, e tagarelando em ingles. Londres.

Fernando eu reconheci como conterraneo pelo sotaque. "Excuse me, sir, but where are you from?", perguntei. "I am Brazilian, miss," respondeu ele. Conversa vai e vem e meus companheiros de mesa me olham desconcertados sem entender o que tanto eu tenho pra conversar com o garcom, principalmente quando sei que eles nao compreendem uma virgula do que digo. Fernando, muito gentil, volta a se dirigir a nós em inglês e continua a me explicar por que prefere morar fora do Brasil: "It is safer, you see?", "E mais seguro, entende? Tem um sistema de educacao bem melhor pros meus filhos. Eu tenho condicoes de economizar, comprar minha casa, por meus negocios em ordem, e ainda viajar pro Brasil no Natal... E voce?"

Eu explico que nao moro em Londres. Estou de passagem. A vida, afinal, nao e tao ruim no Rio de Janeiro. O sistema educacional... bem, pelo menos a seguranca... e quando chove... Bem, ao menos da pra economizar e ir pra Inglaterra no Natal. Entre a lasanha, o pato assado, e a torta de chocolate, Fernando vai contando sobre como nao se adaptou quando tentou voltar ao Brasil depois de 5 anos. "Nao e ruim - ele insistia - mas tudo e tao devagar. Nao quero ficar esperando o pais melhorar enquanto assisto meus filhos crescerem!" Me despeco e acompanho meus companheiros de viagem ate a rua, onde volta e meia escuto o sotaque de algum brasileiro que passa.

Lidia e Marco eu reconheci por causa de Miles, o filho de tres anos que eles tem. "Senta, mae, senta," repetia Miles apontando para a cadeira proxima da minha. Eu sorri, disse oi, e cumprimentei os pais em portugues. "Carioca?" pergunta Lidia. Confirmo e descubro logo que eles sao de Sao Paulo e Curitiba. Miles e de Londres mesmo. "Mora aqui? Trabalha? Quer vir?" sao as perguntas costumeiras e eu nego todas. Eu gosto do Brasil na maioria das vezes. E quando nao gosto acho mais divertido ficar e cutucar as feridas com o humor e desapontamento de sempre.

Eles contam sobre como cansaram da falta de mudanca no nosso pais verde e amarelo. Queriam um lugar mais seguro pro Miles - vale a pena ressaltar que uma cidade sob risco de ataques suicidas extremistas, bateu Sao Paulo de 10 a 0. Queriam escolas melhores, hospitais sem filas interminaveis, e uma casa sem grades nas janelas. "Voce nao concorda?" eles me perguntam. Eu concordo com tudo, educada, e meio desconfortavel com essa verdade inconveniente que insiste em me atrapalhar o almoco.

Lembro do colega de escola que vivia me perguntando por que diabos eu queria voltar pro Brasil. Lembro desse blog que foi ideia dele. E, como o tema disso tudo sao pensamentos, resolvo puxar minha chair pra mais perto do computer e escrever um pouco. A passagem largada na mesa me lembra que essa e minha ultima noite aqui e, incomodamente, me pego pensando no quanto concordo ou nao com meus conhecidos de restaurante.


N.D.R: O texto foi mantido na sua forma original, sem cedilhas e acentos para que a essência e a estética que a autora imprimiu ao escrever, direto da Inglaterra, para o blog fossem preservadas.

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