Recentemente esbarrei com Fernando, um brasileiro de trinta e poucos anos, garcom ha dez, pai de 3 filhos, prestes a comprar a casa propria. Esbarrei tambem com Lidia e Marco, gente simples que tenta criar seu filho, Miles, da melhor forma possivel. Nos dois casos, os encontros acidentais se deram em restaurantes forrados por tapetes e posteres coloridos. Velas, incenso, ópera tocando no radio, gente comendo, gesticulando, e tagarelando em ingles. Londres.
Fernando eu reconheci como conterraneo pelo sotaque. "Excuse me, sir, but where are you from?", perguntei. "I am Brazilian, miss," respondeu ele. Conversa vai e vem e meus companheiros de mesa me olham desconcertados sem entender o que tanto eu tenho pra conversar com o garcom, principalmente quando sei que eles nao compreendem uma virgula do que digo. Fernando, muito gentil, volta a se dirigir a nós em inglês e continua a me explicar por que prefere morar fora do Brasil: "It is safer, you see?", "E mais seguro, entende? Tem um sistema de educacao bem melhor pros meus filhos. Eu tenho condicoes de economizar, comprar minha casa, por meus negocios em ordem, e ainda viajar pro Brasil no Natal... E voce?"
Eu explico que nao moro em Londres. Estou de passagem. A vida, afinal, nao e tao ruim no Rio de Janeiro. O sistema educacional... bem, pelo menos a seguranca... e quando chove... Bem, ao menos da pra economizar e ir pra Inglaterra no Natal. Entre a lasanha, o pato assado, e a torta de chocolate, Fernando vai contando sobre como nao se adaptou quando tentou voltar ao Brasil depois de 5 anos. "Nao e ruim - ele insistia - mas tudo e tao devagar. Nao quero ficar esperando o pais melhorar enquanto assisto meus filhos crescerem!" Me despeco e acompanho meus companheiros de viagem ate a rua, onde volta e meia escuto o sotaque de algum brasileiro que passa.
Lidia e Marco eu reconheci por causa de Miles, o filho de tres anos que eles tem. "Senta, mae, senta," repetia Miles apontando para a cadeira proxima da minha. Eu sorri, disse oi, e cumprimentei os pais em portugues. "Carioca?" pergunta Lidia. Confirmo e descubro logo que eles sao de Sao Paulo e Curitiba. Miles e de Londres mesmo. "Mora aqui? Trabalha? Quer vir?" sao as perguntas costumeiras e eu nego todas. Eu gosto do Brasil na maioria das vezes. E quando nao gosto acho mais divertido ficar e cutucar as feridas com o humor e desapontamento de sempre.
Eles contam sobre como cansaram da falta de mudanca no nosso pais verde e amarelo. Queriam um lugar mais seguro pro Miles - vale a pena ressaltar que uma cidade sob risco de ataques suicidas extremistas, bateu Sao Paulo de 10 a 0. Queriam escolas melhores, hospitais sem filas interminaveis, e uma casa sem grades nas janelas. "Voce nao concorda?" eles me perguntam. Eu concordo com tudo, educada, e meio desconfortavel com essa verdade inconveniente que insiste em me atrapalhar o almoco.
Lembro do colega de escola que vivia me perguntando por que diabos eu queria voltar pro Brasil. Lembro desse blog que foi ideia dele. E, como o tema disso tudo sao pensamentos, resolvo puxar minha chair pra mais perto do computer e escrever um pouco. A passagem largada na mesa me lembra que essa e minha ultima noite aqui e, incomodamente, me pego pensando no quanto concordo ou nao com meus conhecidos de restaurante.
N.D.R: O texto foi mantido na sua forma original, sem cedilhas e acentos para que a essência e a estética que a autora imprimiu ao escrever, direto da Inglaterra, para o blog fossem preservadas.
N.D.R: O texto foi mantido na sua forma original, sem cedilhas e acentos para que a essência e a estética que a autora imprimiu ao escrever, direto da Inglaterra, para o blog fossem preservadas.
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