30 de março de 2010

Novela


Na noite de sexta para sábado, sem muita opção do que fazer, carrego alguns amigos para jogar sinuca na Lapa. A saída é assustadoramente proveitosa, natural e gostosa. Ignoramos o calor e nos espantamos com o quantos somos ruins com o taco e, ainda assim, nos divertimos. Escutamos Red Hot, Beatles, Pink Floyd, Nirvana e Cazuza na Jukebox, todos com as músicas na ponta da língua. Saio quando começa a tocar One do Metallica, canção que todos amam e eu simplesmente não vejo graça alguma.

É no gramado que me surpreendo. Ao contrário da costumeira calmaria desordenada, há uma certa apreensão no ar. Um grupo grande de pivetes se movimenta na praça e cerca sistematicamente as pessoas desavisadas que passam perto do gramado e dos arcos. Eu vejo um cordão ser roubado e o ladrão sumir na multidão, depois um óculos, seguido de uma tentativa de levar uma carteira.

Paulo passa mal com a bebida e levo ele para os arcos, onde ele pode vomitar. Escuto alguém falando "Fudeu, eles cercaram a menina". Olho para a minha direita e perto de várias barracas de bebida, uma turista recusa um grupo de pedintes que vão se aglomerando em torno dela, cada vez mais perto. Não são pedintes, são ladrões. Começa o ataque, um puxa a bolsa, o outro tenta puxar o cordão, um puxa a orelha dela com força tentando arrancar o brinco.

Esse último se desvencilha de um dos acompanhantes da turista e corre na minha direção. Não sei o que dá em mim no momento, ajo por reflexo e agarro ele pelo pulso com toda a minha força. Sou maior e mais forte, mas ele tem um caco de vidro na mão esquerda. O ladrão grita, aperto com mais força. Ele me xinga, mas joga o caco no chão quando me olha nos olhos, eu sei que passo medo quando estou com raiva.

Aperto o pulso com mais força. "O que você pegou?", grito. Ele se debate, aperto mais ainda. Ele abre a mão e não tem nada lá, ele não conseguiu tirar o brinco. De repente, tenho uma vontade absurda de agredi-lo, mas me contenho. O ladrão começa a chorar e só então me dou conta de que estou segurando um desesperado, um pivete, alguém que vive no limiar do nada. De longe, vejo os guardas se aproximando, sei que ele vai ser espancado se alguma coisa acontecer. Largo o pivete, que me xinga e diz que vai me furar até o fim da noite. Ele corre para o meio da multidão.

Horas depois, ele é pego bem ao meu lado por dois policiais tentando roubar uma menina. Um deles acerta seu calcanhar e seu joelho com força usando o enorme cacetete de madeira. O som dos choques é meio surdo, mas dá nervoso. O pivete chora, entra em desespero e continua apanhando enquanto é levado para um canto.

Tenho pena dele e penso nisso enquanto o dia amanhece e eu chego em casa. É óbvio demais dizer que ele é uma vítima, é simples levantar todas as circunstâncias que levaram-no a fazer aquilo. Dissertar sobre isso aqui seria uma gigantesca perda de tempo, o assunto mais batido do universo. Lembrar que ele é só um entre os milhares que sofrem do mesmo problema e de como a sociedade ignora o drama de todos eles também.

Na noite de sábado, paro numa padaria perto do meu trabalho para tomar café e espantar o sono. Lá, a televisão está ligada num telejornal que exibe cenas do julgamento do casal Nardoni e toda a mobilização popular, que levou 300 pessoas aos arredores do tribunal. Eles gritam e clamam por justiça, xingam os assassinos e batem no carro de polícia que os leva embora. Em alguns pontos de São Paulo, há queima de fogos pela condenação.

Isabella Nardoni morreu de maneira trágica, mas Isabella Nardoni é apenas uma vítima. Os Nardoni são assassinos, mas são só um casal de assassinos. Ana Carolina Oliveira é uma vítima das circunstâncias pela morte de sua filha, mas é só mais uma mãe que perdeu seu filho de maneira trágica. Nenhum deles têm importância alguma, valor real algum para a sociedade. São só peões que atraíram holofotes por conta de toda a situação e da atenção da mídia. Um comentarista fala sobre como o povo se comoveu com o caso e acho isso ridículo. O povo não se comove com o sofrimento alheio, o povo se comove com novelas. E a mídia e todo o cenário tornaram o Caso Isabella num verdadeiro enlatado com todos os personagens mais óbvios possíveis: a mãe vítima que busca justiça, o promotor zeloso que é elogiado, o casal de assassinos que é condenado e a menina que continua viva no coração de quem ela deixou para trás.

Estamos falando só de uma morte e de como ela levou 300 pessoas para a frente de um tribunal em plena sexta-feira. Enquanto isso, outros morrem em becos escuros sem que ninguém se dê conta, ultrapassando o limiar da vida para o nada sem ter sequer uma oportunidade de viver uma existência digna.

E isso não gera protestos.

Nem queimas de fogos.

Um comentário:

disse...

O caso da menina morta pelo pai virou mais que novela, virou circo!!!
E daqui a pouco virarã filme. Nao ~e assim aqui no Brasil?
Realmente se o povo se mobilizasse a cada João da Silva morto na esquina de casa a coisa talvez estivesse um pouco melhor.
Os pivetes da Lapa precisam ser banidos, mas eles sao dos males o menor.
As vezes me pego completamente sem esperança em relaçao a isso no meu "lar".
Abços